O que é SIBO? Sintomas, causas e como o diagnóstico é feito.
O supercrescimento bacteriano no intestino delgado é uma das causas mais subdiagnosticadas de distensão abdominal crônica e síndrome do intestino irritável. Entenda como identificá-lo.
Sintomas digestivos persistentes — distensão depois das refeições, gases, períodos de constipação que alternam com diarreia — costumam ser tratados como "frescura" ou rotulados rapidamente como síndrome do intestino irritável. Mas em uma fração significativa dos pacientes existe uma causa bem definida por trás: o supercrescimento bacteriano no intestino delgado, conhecido pela sigla SIBO.
Este artigo é um guia clínico, mas pensado para qualquer pessoa entender: o que é SIBO, por que acontece, quais sintomas levantam a suspeita e como o diagnóstico é feito hoje, de forma não invasiva, pelo teste respiratório de hidrogênio e metano.
O que é SIBO
O intestino delgado é, em condições normais, um ambiente com poucos microrganismos. A maior parte da microbiota fica concentrada no cólon. No SIBO (Small Intestinal Bacterial Overgrowth), há um crescimento excessivo de bactérias dentro do intestino delgado — bactérias que, em si, podem ser saudáveis, mas que estão no lugar errado e em quantidade inadequada.
Essas bactérias fermentam os carboidratos da alimentação antes que eles sejam absorvidos, liberando hidrogênio e, em alguns padrões, metano em grande volume. É essa fermentação precoce que produz os sintomas característicos.
A questão não é a presença das bactérias — é a quantidade e o lugar.
Por que acontece
O SIBO raramente surge sem motivo. Geralmente, há uma alteração de motilidade, de barreira ou de secreção digestiva que cria condições favoráveis para o supercrescimento. Os fatores mais comuns incluem:
- Episódios prévios de gastroenterite aguda (SIBO pós-infeccioso)
- Uso prolongado ou repetido de inibidores de bomba de prótons
- Cirurgias do trato digestivo, especialmente bariátrica
- Hipotireoidismo, diabetes e outras condições que afetam motilidade
- Doenças que comprometem o sistema imune ou a barreira intestinal
Sintomas principais
Os sintomas são predominantemente digestivos, mas podem ter manifestações sistêmicas. Os mais frequentes:
- Distensão abdominal que piora ao longo do dia
- Gases e flatulência intensos, especialmente após carboidratos
- Dor abdominal em cólica, geralmente periumbilical
- Alterações do hábito intestinal: diarreia, constipação ou alternância
- Sensação de saciedade precoce
- Fadiga, neblina mental e, em casos crônicos, deficiência de vitamina B12
A sobreposição com a síndrome do intestino irritável
Estudos populacionais sugerem que entre 30% e 60% dos pacientes com diagnóstico de SII apresentam supercrescimento bacteriano subjacente. Isso significa que, em muitos casos, o que se chama de SII é, na verdade, um quadro tratável com investigação adequada.
A diferença prática é importante: o SII tratado apenas com dieta e antiespasmódicos costuma evoluir em ondas; o SIBO, identificado corretamente, responde a estratégias específicas — antimicrobianos direcionados, ajuste de motilidade e reintrodução guiada de alimentos.
Como o diagnóstico é feito
O método de referência ambulatorial para diagnóstico de SIBO é o teste respiratório de hidrogênio e metano, realizado após a ingestão de um substrato fermentável (lactulose ou glicose).
Como funciona o exame
- Coleta de uma amostra basal de ar expirado, em jejum
- Ingestão do substrato (10g de lactulose ou 75g de glicose)
- Coletas seriadas a cada 15–20 minutos por 2 a 3 horas
- Análise dos níveis de H₂ e CH₄ por intervalo de tempo
O Consenso Norte-Americano de 2017 estabelece como positivo um aumento de hidrogênio de 20 ppm ou mais sobre a linha de base dentro dos primeiros 90 minutos. Níveis elevados de metano (≥10 ppm em qualquer tempo) indicam o padrão IMO, frequentemente associado a constipação.
Limites do teste
O teste respiratório é seguro, não invasivo e bem tolerado, mas tem limites importantes. Falsos negativos podem ocorrer em pacientes com trânsito acelerado ou quando o preparo alimentar não é seguido. Por isso, a interpretação clínica do laudo é tão importante quanto o exame em si.
Linhas de tratamento
O tratamento do SIBO é individualizado e tem três eixos principais:
- Antimicrobiano direcionado: com substância selecionada conforme o padrão (predomínio de hidrogênio ou metano)
- Ajuste de motilidade: para reduzir o risco de recorrência
- Reintrodução alimentar guiada: evitando dietas restritivas prolongadas
Importante: este artigo é informativo. A escolha do esquema terapêutico deve ser feita em consulta médica, com base no quadro clínico e nos achados do exame.
Quando investigar
Vale a pena conversar com seu médico sobre teste respiratório para SIBO se você convive há mais de três meses com sintomas que combinam:
- Distensão pós-prandial recorrente
- Gases ou flatulência fora do habitual
- Alteração do hábito intestinal sem causa esclarecida
- Diagnóstico prévio de SII sem boa resposta ao tratamento
- Uso prolongado de inibidores de bomba de prótons
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